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A Marcha Mundial de Mulheres contra a Pobreza e a Violência Sexista, desde a primeira reunião brasileira, em outubro de 1999, traçou coletivamente o objetivo de trabalhar com a plataforma internacional da MMM e também discutir como ela deveria se traduzir no Brasil.
Queria discutir caminhos alternativos para o crescimento do país que se contrapusessem aos alívios pontuais dos programas assistencialistas, e que tenham por base a distribuição de renda, a promoção de justiça e da igualdade e o uso sustentável dos recursos.
Um exemplo deste percurso pode ser apresentado a partir de duas reivindicações de combate à pobreza trabalhadas pela Marcha em 2002: a resistência à ALCA, a chamada Área de Livre Comércio das Américas, e o aumento do salário mínimo, prioridades definidas a partir da estratégia de fortalecimento das organizações de mulheres e na realização de ações próprias do movimento.
Em 17 de outubro de 2002, os debates sobre a valorização do salário mínimo foram iniciados. O resultado foi a organização de uma campanha concebida em várias etapas, combinando ações no âmbito local, regional e nacional, contando com atividades de educação popular, eventos públicos de visibilidade e negociação junto ao Legislativo e ao Executivo.
Uma política de elevação progressiva do salário mínimo, como um elemento fundamental para a elevação dos salários de base e dos benefícios da previdência social, permite proteger os trabalhadores e criar um piso que pode reduzir desigualdades sociais. É isso o que se observa nos países onde se tem uma política de salário mínimo maior.
As mulheres e o salário mínimo
Analisando a situação brasileira, vimos que das trabalhadoras que compõem a PEA (População Economicamente Ativa), 24,7% recebem até um salário mínimo; 21,5% de um a dois salários mínimos; e 20,7% estão sem rendimentos.
Num outro extremo, apenas 7,6% das mulheres possuem rendimento superior a escala de cinco a dez salários mínimos, enquanto para os homens a porcentagem quase atinge o dobro, 13,6%.
Ainda que se constate uma lenta redução nas diferenças de rendas entre homens e mulheres, esta é produto da redução média de renda dos homens e do aumento das desigualdades entre os salários das mulheres. Esta realidade ainda não é considerada pelo conjunto do movimento feminista e corre-se o risco de que as demandas de trabalho e renda para as mulheres sejam observadas de forma dual.
Partindo desse desafio, decidimos trabalhar a bandeira da valorização do salário mínimo como forma de combater à pobreza entre as mulheres e enfrentar a desigualdade de renda que tem as marcas de gênero e raça.
O salário mínimo mensal hoje no Brasil é de R$ 240,00. O reajuste anunciado em 1º de abril implica em um aumento real de menos de 2%. O salário anterior era de R$ 200,00. O valor dos itens da cesta básica em janeiro de 2003 comprometia 88,14% do salário mínimo na cidade de São Paulo e 68,55% em Recife, na região nordeste do país. Em Mossoró, uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte demonstra que a cesta básica custou em abril R$ 357,16.
A proposta da Marcha para o aumento do salário mínimo tem como horizonte um valor que represente uma distribuição de renda mais justa. Por isto, utiliza como referência o valor equivalente a 60% do PIB (produto interno bruto) dividido pela PEA (População Economicamente Ativa), desconsiderando-se as crianças de 10 a 14 anos. Em valores de 2002, foi idealizada a quantia de R$ 730,00. Embora este valor não possa ser definido ser definido por decreto de um dia para o outro.
Para atingir essa meta, a Marcha propõe reajustes anuais com a correção total da inflação medida por índice que se aproxime do consumo das pessoas de baixa renda, mais um aumento real de 20% durante os primeiros 4 anos. Essa valorização permitirá dobrar o valor do atual salário mínimo e no prazo de quatro anos alcançar o valor de 60% do PIB per capita.
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